Obrigado Gonçalo M. Tavares.





Não, não te tenho lido como obsessivamente te lia. Aliás há já um bom tempo que não te leio. Tenho-te visto. Visto e ouvido naqueles vídeos do Youtube, que não têm milhões de visualizações, que não têm gajas com rabos enormes, que não têm gatinhos ou tipos a partirem smartphones. Os vídeos têm uma pessoa, a tua. Por isso, talvez só tenham algumas dezenas de visualizações. 
É só para que saibas que eu sou uma pequena parte destas dezenas de pessoas que te vêem, mas mais do que tudo te ouvem.

Sou muito atento e observador.

Mas por vezes até fecho os olhos para apenas te ouvir, fica mais fácil para uma pessoa como eu, com evidentes limitações intelectuais, compreender o que dizes. E como eu compreendo algumas coisas.
Por exemplo, gosto da distinção claríssima que fazes entre escrever e publicar. Escreve o escritor, publica ou publicador ou editor. Só por si, isto põe uma data de fantasmas, incertezas e inseguranças para fora dos escaparates.

Criando condições para a escrita.

Também gosto do conceito de não forçar a escrita. O que devemos fazer é criar condições para que ela possa acontecer, se tiver que acontecer. Seja a nível experimental, empírico e de vivência, seja depois, já mais próximo das letras e da secretária a ler ou a pensar. No campo de ler, já não se pode falar em forçar a leitura ou não, mas sim no interesse arbitrário da leitura, no fundo deixar fluir. Lê-se tudo, da Maria, à Bíblia, à lista de compras. Tudo na vida pode ser um ponto de partida, uma breve inspiração, apesar de inspiração ser uma palavra que tenho muito dificuldade em tangibilizar, sentir ou acreditar. Porque acreditar, acredito em escrever.

Escrever é um acto atlético.

Outro ponto com o qual concordo. Tem muito de físico. Creio que tem mais de físico do que se possa imaginar. E este acto atlético acompanha a par e passo o intelecto. Este é o momento da escrita, em que se escreve e se pensa a escrita. Não há um antes, nem um depois. Se existe um antes será o processamento, não de texto, mas sim de reflexões, ideias, conceitos e se existe um depois é algo já escrito. Eu não escrevo com notas, com guias, com apontamentos, eu escrevo directamente da cabeça para os dedos e dos dedos para as teclas. E se existem notas, estas são meramente mentais.

Tudo se molda e se não se moldar não faz mal.

Porque lá está, o mais importante é mesmo escrever. Dizes que escreves desde os 18 anos e só publicaste aos 36 anos. Mais uma vez obrigado pela confiança que as tuas palavras transmitem. Primeiro porque escrevo desde os 16, tenho 42 e tudo o que publiquei na vida, para além de posts verdadeiramente miseráveis num blog, foi um livro infantil, com um texto que só não é medíocre, porque o fiz com muito amor e dedicação à Frederica. 
Pelo meio ficou tudo o que não consegui moldar. Milhares de palavras, textos perdidos, como um vírus, no computador, nas gavetas, no lixo. Não faz mal. Agora tenho a confiança e certeza que não faz mal.

Mas tenho mais certezas.

A confiança que as palavras do Gonçalo me dão fazem ter quase a certeza que até vou publicar. Mas não é importante. Até porque certeza, certeza, certinha é que vou continuar a escrever e a ler para sempre. Muitas pessoas quando atingem a maturidade, senioridade e até a aposentadoria descobrem coisas novas para fazer. O golfe, as caminhadas, as viagens, a sueca. Eu sou um sortudo, levo uns 20 anos de avanço nesta matéria, pois vou escrever e ler até ao dia em que morrer. 

Por isso, na cronologia da vida e no que diz respeito à escrita sinto-me um bebé, a dar os primeiros passos. Já nem consigo deixar de pensar como vai ser quando tirar as fraldas e a minha escrita deixar de cheirar à porcaria que hoje cheira.

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