A Rainha do Corvo. (Que por sinal era filha do Padre)



De todas as ilhas dos Açores que são especiais, o Corvo é a mais especial. Corvo negro, furtivo, sombrio, o símbolo da cidade de Lisboa. Mas, por simpatia, por galhardia corvina, só. Porque Corvo, Corvo há só um. O Corvo! E nada está melhor para o Corvo, do que o Corvo.
O Corvo podia ser um sanatório ou uma prisão. Bom, antigamente, nascer na prisão ou ser-se condenado a nascer no Corvo era a mesma coisa.
No Inverno, o mau tempo no canal Flores-Corvo é tão mau, mas tão mau, que nem os peixes resistem. O vento, forte, pujante que mal deixa cultivar a terra, é, ao mesmo tempo, seminal, não tivesse nascido fruto de uma noite de paixão e vendaval com uma bruxa do Corvo, o Feiticeiro do vento, a quem os corvinos se dirigem em orações, a pedir menos ventos e tempestades.
No Corvo não reinava outra lei que não a lei dos homens. Todos por igual, um comunismo sem teoria política, votos, ou mandatos, apenas e só por uma questão de sobrevivência. Como tal, ninguém se distinguia, em particular, de ninguém.
Todos descalços, ordenham e lavram, fazem farinha e pão, matam porcos, vão à pesca, cuidam das galinhas e cumprem rituais antigos, perdidos no tempo, mas nunca esquecidos, apenas para ali abandonados.
Até ao dia...
Até ao dia que veio alguém de fora. Um estrangeiro que visitou a ilha.
Estranho, percorrer uma pessoa meio mundo para chegar ao Corvo, quando meio mundo do Corvo só queria dele fugir. Mesmo apesar da presença deste alienígena, nada mudou.
As portas continuaram por trancar, e as porcas continuaram a ser mortas e partilhadas.
Até que o estrangeiro se foi embora.
Mariana da Conceição Lopes era filha do Padre. Sim, no Corvo, e só no Corvo, os padres podem ter filhos. Os que quiserem. Porque no Corvo não há outra lei que não a dos homens. E se os homens aceitam esta situação não há nenhum Papa ou Primeiro Ministro que lhes mude a opinião, ou que esteja para ir ao Corvo fazer-lhes mudar de opinião.
Foi logo no dia a seguir ao estrangeiro se ir embora que a dita Mariana da Conceição Lopes descobriu que se tinha esquecido da sua capa e de um par de botas.
Ninguém tinha capas no Corvo... muito menos botas...
Mariana, filha legítima do Padre, não se fez rogada. Aliás, o facto de ser filha do padre, ainda por cima legítima, dava-lhe para ter muito pelo na venta.
Mas, agora... agora o bigode dava-lhe outra credibilidade, outra postura de estado, realeza, isto para não falar, claro, da capa e das botas.
Passou a interpelar as pessoas na rua, dizendo-lhes como é que as coisas deviam ser feitas, na lavoura, na pesca, mas também em casa, na cozinha, e até na cama.
Tal como um grande monarca, tinha um dom natural para o discurso e para a retórica. Maneira geral, todos os corvinos o tinham, mas ela é que tinha as botas... Dizia em voz alta, olhando para elas:
– Não cobiçarás o alheio nem me chamarás de egoísta por não partilhar as minhas botas, até porque não vos servem.
Mandou construir um castelo com as cartas velhas e surradas do café da Vila, o único, e casou com o Rei de Espadas, numa cerimónia nunca vista no Corvo e que contou com a presença de várias casas reais. Entre elas, a destacar, a presença do Principado do Ilhéu da Pontinha, conhecido como o diamante que ilumina a pérola do Atlântico – a Madeira; o Rei dos Frangos de Moscavide; e vários sósias do Elvis Presley, que foram largados de paraquedas por um B52 da força aérea americana.
Das Américas, também se juntou à festa, o famoso Burguer King. E de São Miguel, O Rei dos Queijos, que levou um queijo de São Jorge inteiro, com mais de 9 meses de cura, e seguiu viagem no mesmo barco do Pão do Rei.
O Corvo estava assim no mapa das grandes casas reais. Tinha com elas relações de cordialidade, sendo que, até hoje, ficaram muitos de voltar para uma temporada de férias.
Por data do primeiro aniversário de casamento da Rainha D. Mariana da Conceição Lopes,  filha legítima do padre, com o Rei de Espadas, do baralho de cartas velho e surrado do café da Vila, foi mandada construir, no meio do caldeirão, uma estátua de 20 metros, feita de ramos de árvores e folhas caídas, de forma a assinalar a efeméride.
A população corvense ficava já um pouco farta dos mandos e desmandos da Rainha D. Mariana da Conceição Lopes, mas como era filha do padre, ainda por cima legítima, iam levando com aquilo, em vez de levarem com mais uma carrada de pai nossos e avé marias.
No dia em que estátua ficou pronta, fez-se uma festa tão grande, mas tão grande, que se diz que um Czar, que estava a caminho do Pico para comprar vinho verdelho, viu as chamas intensas das fogueiras que iluminavam o caldeirão e ouviu os cantares, que descreveu como perdidos no tempo. Do princípio do mundo.
Pena a festa ter de acabar por causa da chuva e do vento. Sempre a chuva, sempre o vento!...
Iam se revezando, iam olhando com desdém para o que o outro fazia. Mais chovia, mais vento o vento queira fazer, mais chuva queria chover.
Ninguém ganhou. Perdeu o Corvo.
Tanto foi o vento, que partes da estátua de 20 metros, feita com ramos de árvores e folhas, em homenagem ao primeiro aniversário da boda real, voaram para cima do casario, destruindo telhados, vidros, portas e janelas. A chuva, que não queria ficar atrás, foi tanta, que o Caldeirão derramou por fora, descendo a água, a terra, a lama, os ramos, as folhas e as pedras pelo Morro dos Homens – que outro nome dar a um morro no Corvo? –, até atingir violentamente a Vila do Corvo, lavando, em porrada, casas, gentes e animais.
Era o fim da dinastia Lopes.
A população agarrou num barril de alcatrão, colocou lá dentro penas de galinha, que estavam agora por toda a parte, a deposta rainha D. Mariana da Conceição Lopes, filha legítima do padre, e o Rei de Espadas, velho, cansado, e surrado, do Café da Vila.
- Agora, nunca mais jogaremos à sueca, mas pelo menos temos paz.
Só se esqueceram de colocar uma coisa no barril.

A capa e as botas...

Comentários