Estala a Grande Guerra na Fajã de Cima.



Para o Diabo não haviam dúvidas. Aquilo era alemão, assim soprado ao de longe da cidade, do lado de baixo do Equador Carneiro, no meio da madrugada, altura em que antes acordava para ir beber 6 marrecas seguidas ao Carneiro. Agora que deixou a bebida, aparentemente acorda para ouvir falar alemão ao longe, cães a latir, vacas a mugir, e gente a cortar relva desde muito cedo. Ainda se o que ouvisse fosse cubano... É que Cuba, desde a visita póstuma do Fidel Castro, tinha-se tornando numa plataforma giratória de catapultar cubanos para os Açores, nomeadamente para a Fajã de Cima. Era uma catapulta gigante, emprestada dos livros do Astérix e Obélix, só que em vez de catapultarem romanos, catapultavam cubanos. Uns vieram com maracas nas mãos, outras de saia rodada. Catapultaram chicharrónes, fufú de plátano, como se não existissem bananas suficientes na Fajã de Cima, e ainda catapultaram um Chevrolet Bel-Air de 1957, com jantes de baixo perfil. Uma viatura que teria entrada directa no capítulo “Os veículos da Fajã de Cima”, pena o texto já estar escrito. Acomodaram-se ali na cave do supermercado Pôr-do-Sol, onde antes era um bar nocturno. Apostaram no conceito bar nocturno, e até lhe estiveram para chamar Havana, mas depois pensaram melhor e mantiveram o nome: O enclave, e pese embora agora se oiça música cubana, muito pouco mudou naquele bar.


- Mas agora alemão?
- De certeza que deixaste de beber, ò Diabo? 

E de facto o Diabo deixou a bebida. Mais precisamente em cima do balcão, mas nada que o fizesse confundir o alemão com qualquer outra língua. Possuído, ao mesmo tempo pela curiosidade e pela falta do que fazer, meteu-se no seu 206, que mais parecia um tanquezinho de guerra, tantas as tonalidades de verde, e foi até à pontinha do porto de Ponta Delgada. Desligou as luzes, a abriu a porta para ouvir melhor. As janelas estavam encravadas. Esperou, esperou, esperou e nada de alemão, ou mesmo cubano, diga-se. Nem açoriano.

Nesse dia voltou para casa bem frustrado, o carro não pegou e ele teve que voltar para a Fajã de Cima a pé, revisitando o alemão que aprendera no filme do Charlie Chaplin, o Grande Ditador.  Adormeceu em alemão, e acabou a gritar em cubano:

- Mês Chicharrones! No!!!!!

A esta altura ainda sonhava que chicharrones pudessem ser algo parecido aos chicharros que tão bem conhecia. Sonhou também, mas só um bocadinho, com “o” Silvéria, e que o seu carro se tinha arranjado automaticamente, quando acordou com um enorme estrondo. Vinha ali dos lados da canada de Nossa Senhora do Pilar. Ainda foi preciso correr uns bons metros para o Diabo perceber que estava em cuecas e só com botas de cano nos pés. Tarde demais. Quando chegou, parecia o fim do mundo. (Em cuecas). O telhado da casa do Francisco Rego tinha colapsado pela explosão de uma granada e com isto tinha morto a Tomásia, a vizinha que tinha 17 anos, mas como era muito escanzelada, não lhe davam mais de 13. Enfim, 17 ou 13 a verdade é que foi cedo. Choraram ali à pressa a morte da miúda, e foram para casa, pois apesar de ser Julho estava um frio do caraças. Não fossem apanhar um resfriado por estarem ali sem agasalho, praticamente só de botas de cano.

No dia seguinte não se falava noutra coisa na Fajã de Cima. Como seria possível tanta gente ter saído à rua só de cuecas? Como é que os modelos eram tão parecidos entre si e que sim, o Mário ficou de cama por lhe ter entrado uma aragem pelas costas adentro. O resto, só souberem pelo jornal. Como o Diabo não sabia ler, esperou que o Carneiro chegasse da sua mega loja na Fajã de Baixo, enquanto ia despachando marrecas, finos, meios, quartis do que quer que aparecesse à frente. Por isso, quando o Carneiro lhe contou que aquela e outras granadas tinha sido disparadas por um submarino alemão, o Deutshland U-155, valendo-nos a ajuda do carvoeiro americano USS Orion, que colocou o submarino em fuga... o Diabo olhou para o  vazio do copo vazio, frustrado, suspirou, respirou fundo e, triste por se estarem sempre a meter com ele, foi para casa. Só no dia seguinte, quando se sentou na beira da cama, sem forças para se levantar é que gritou bem alto:

- Eu sabia! 















Esta história não se encontra no livro. É uma espécie de "Bonus Track". Já o livro podem encontrar à venda nestes links:

Wook


Bertrand


Letras Lavadas


Extra:

Entrevista à Azores Airlines.




Comentários